Como as flores são usadas para tratar a pele

Cada vez mais marcas têm usado ativos florais para tratar a pele graças a seus antioxidantes e outros ingredientes poderosos.

 

As flores são o batom vermelho das plantas. A função delas é serem bonitas e atrativas. Mas a química que usam para promover esse show – especialmente os antioxidantes, como os flavonoides, que dão às pétalas matizes vívidos – pode conferir uma abundância de benefícios para a pele humana. “Muitas flores têm efeitos antibacterianos, antioxidantes e anti-infamatórios”, diz a dermatologista norte-americana Mona Gohara. “Trata-se de entender e dominar o que vem das plantas”, completa Edouard Mauvais-Jarvis, diretor de comunicação científica da Dior.

De olho nas propriedades que vão muito além do aroma e da beleza, o mercado cosmético tem investido em pesquisas e novos lançamentos baseados nos ativos presentes em diversos tipos de flor. Lançado este mês no Brasil, o Micro-Huile de Rose, da linha Prestige, da Dior, é formulado com propriedades únicas da rosa de Granville, que cresce exclusivamente no Vale do Loire, na França. “Nesse caso, as moléculas que uma flor usa para a autorreparação e a defesa contra os agressores, como o sol, podem ajudar a ressincronizar e nutrir a pele”, acredita Mauvais-Jarvis. Depois de cinco anos e 150 tentativas de fabricação, o Micro-Huile agrega uma variedade de 20 nutrientes encontrados na planta, incluindo ômegas 3, 6 e 9 e vitaminas E, B3, B5 e C. Eles não apenas contribuem para o fortalecimento e a hidratação do tecido epidérmico mas também para uma microcirculação saudável.

“Quando enfrentamos agressores diários, como poluição, estresse e estilo de vida muito agitado, nosso corpo produz mensageiros chamados interleucinas, que provocam uma microinflamação na pele. Isso leva a uma destruição lenta e assintomática das estruturas, o que acelera o processo de envelhecimento”, afirma o diretor da Dior. As vitaminas e os minerais encontrados na rosa, segundo ele, podem diminuir a inflamação em 17%, ao mesmo tempo que restabelecem o bom funcionamento dos genes-relógio da célula, que comandam os ciclos de renovação de 24 horas da pele. Ainda sobre a mesma flor, mas outra variedade, a linha facial Sisley’s Black Rose usa os benefícios do extrato da rosa negra para hidratar e suavizar a pele, aliando outros ingredientes e extratos de flores, como o hibisco (tonificar) e a rosa alpina (lutar contra a opacidade da pele).

Referência no uso de flores em suas fórmulas, a L’Occitane en Provence tem uma plantação própria de lavanda de quase 100 mil m 2 no sul da França, de onde retira todo o extrato usado em suas fórmulas que levam ativos dessa flor. As propriedades aromaterapêuticas da lavanda são conhecidas há séculos, e os poderes da planta de acalmar e “chamar o sono” foram documentados em inúmeros estudos. Um deles, especialmente interessante, publicado na Psychiatry Research em 2007, descobriu que simplesmente cheirar a lavanda diminuiu os níveis do cortisol – o hormônio do estresse – e proporcionou a eliminação de radicais livres.

No entanto, como em muitas flores, seu verdadeiro potencial está apenas começando a ser descoberto, particularmente quando se trata de cuidados com a pele. No Laboratório de pesquisa e desenvolvimento da L’Occitane, em Manosque, muito perto dos campos de lavanda, mais de 100 cientistas operam instalações de extração de plantas com alta tecnologia e vá- rios laboratórios de última geração em que o poder das flores é analisado em seu nível mais minucioso. Há um laboratório de biologia da pele onde os ingredientes são testados em culturas de células humanas. Outro de biologia molecular, onde, segundo Pascal Portes, diretor de inovações científicas, “podemos estudar todo o genoma da pele humana”. E uma instalação onde flores são testadas para medir seus níveis de polifenóis e açúcares. “Temos técnicas para determinar a quantidade e a qualidade das moléculas individuais – espectrometria de massa acoplada ao gás e cromatografia – para que possamos saber mais precisamente a composição de cada elemento do óleo essencial”, diz. “E estamos fazendo novas descobertas o tempo todo.”

É o caso da flor immortelle, que não murcha nunca, mesmo depois de colhida, e cujo extrato é usado na linha do mesmo nome da marca francesa. Uma nova versão mais concentrada, com mudança da fórmula do Óleos Antissinais Divine, acaba de chegar ao Brasil com a proposta de combater rugas, falta de firmeza e de viço com base em ativos extraídos da flor.

A exemplo da L’Occitane, a Guerlain acredita tanto no poder cosmético das flores que tem sua própria plantação de orquídeas e um centro de pesquisas em Estrasburgo, na França. O Te Rich Cream, o mais recente item da linha Orchidée Impériale, é baseado na Gastrodia elata, flor da família das orquídeas que cientistas da marca descobriram aumentar a comunicação entre as mitocôndrias, ajudando a estabilizar os níveis de oxigênio da pele, o que aliviaria os efeitos de insuficiência respiratória celular, como inflamação e dificuldade de regeneração epidérmica.

A lista de flores embelezadoras está constantemente crescendo. Monique Simmonds, PhD e vice-diretora de ciências no Jardim Botânico Real de Londres – talvez o mais prestigiado instituto para pesquisa de plantas no mundo – e consultora-chave para pesquisas de ingredientes botânicos efetivos da marca norte-americana Tata Harper, prevê que o uso das flores no cuidado da pele aumentará nos próximos anos. “Na Colômbia, por exemplo, há mais diversidade de plantas por metro quadrado ou massa terrestre do que no Brasil. É um país rico em certos grupos de plantas, como orquídeas, mas devido à situação política eles ainda não foram totalmente mapeados. Quem sabe quantas espécies mais acharemos que possam ser importantes para os cosméticos?”