Flores - Cronica de Vitor Encarnação

Flores

Vítor Encarnação
De facto, o melhor é escrever sobre flores. É mais ajuizado escrever sobre braçadas de macela e molhos de alecrim.
Toda a gente pode escrever sobre flores, é bonito e confortável escrever sobre flores. Não há qualquer tipo de inconveniente em fazê-lo, é simpático e revelador não só de uma grande sensibilidade, mas também de uma elegante dormência. 
E há tantas flores e tão belas que não há desculpa para escrever sobre outras coisas. Só as gerberas têm duas dezenas de tonalidades, só a vida das gerberas dava um livro. Só escreve, só intenta escrever sobre outras coisas quem não sabe escrever sobre flores, escrever sobre flores é o máximo, a quinta-essência da humildade, devia até haver um Prémio Nobel da Literatura Sobre Flores, ou um prémio de carreira para quem sempre escreveu sobre os órgãos reprodutores dos vegetais fanerogâmicos, no mínimo devia haver louvores para quem só escreve sobre bouquets , menções honrosas para quem faz rimas com flores de plástico, notas de agradecimento para quem faz décimas a flores de estufa. 
As flores dão cor à vida, cheiram bem, libertam energia positiva, alegram casas e fazem lindos centros de mesa. As flores simbolizam beleza, pureza, amor, fertilidade, natureza, criação, infância, juventude, harmonia, perfeição. Perante isto, como é que alguém pode pensar, pode sequer ousar, escrever sem ser sobre flores!? Como é que há jornais que publicam textos sem ser sobre flores?!
Ainda ninguém foi criticado por escrever sobre flores, não há críticas arrasadoras para quem escreve sobre flores, escrever sobre flores é pacífico, cordial e politicamente correcto. Nunca ninguém foi preso por escrever sobre flores, só foi preso quem escreveu sobre flores e descobriram que na verdade a pessoa não queria escrever sobre flores, que afinal as papoilas eram sangue derramado. 
Pode-se escrever palavras, frases, parágrafos, livros, compêndios, enciclopédias sobre flores e pode-se levar vidas e dedicar existências a escrever sobre flores que ninguém se importa. Há relativamente ao acto da escrita sobre flores um sentimento de paternalismo. O tema das flores é sempre bem-vindo e se alguns homens e mulheres mandassem, os escritores só escreviam sobre flores, porque enquanto se escreve sobre flores não se escreve sobre mais nada, não se faz prosa chata, provocadora, inquieta, só se faz poesia com letras perfumadas. Os floreados líricos são petalazinhas que se espalham nas frases para aromatizar o texto.
Um livro devia ser um campo de flores, só flores, muitas flores, páginas e páginas de flores, flores até perder de vista, flores até não se ver mais nada e ficar-se cego.
É tão bom só ler flores, é tão bom ler textos cheios de flores, ramos e ramos decorativos do princípio ao fim do texto. 
Hoje fiz de conta que escrevi sobre flores.
Correio Alentejo